

O simples complexo de O Homem Duplicado
Aviso da Redação: o texto abaixo contém spoilers. Portanto, opte por degustá-lo apenas depois de ter assistido ao filme O Homem Duplicado (Enemy, 2015), de Denis Villeneuve. Ok?
O Homem Duplicado (Enemy, 2013), adaptação do conto de mesmo nome de José Saramago, é o melhor exemplo de como contar uma história de forma não linear, utilizando-se de elementos como cor, luz e sombra; gestos, ambientes e metáforas. O segundo filme do ainda desconhecido Dennis Villeneuve dividiu opiniões entre cinéfilos, mas o objetivo central da obra foi um acerto: fazer o público sair do cinema com mais perguntas do que respostas.
A trama do filme consiste em um homem (Jake Gyllenhaal), professor de história, que vive uma rotina rigorosa. Nela, os eventos se repetem cotidianamente, ao menos até ele encontrar um sósia trabalhando na produção de um filme e decidir ir ao encontro do sujeito para confrontá-lo.


“Caos é a ordem ainda não decifrada”
Esta frase resume a busca do protagonista: embutir uma nova ideia e esperar que o sistema se estabilize e a considere dentro dos padrões da sociedade. O personagem principal busca uma mudança, onde os padrões não se repitam e ele se sinta-se livre para ser quem ele deseja ser.
Anthony e Adam são a mesma pessoa, um foi criado pelo outro em busca de uma fuga da rotina vivida. Anthony é ator, vivído e enérgico; é casado e sua esposa está grávida. Adam é discreto, inseguro e seu relacionamento não passa de sexual com sua namorada. Anthony criou Adam com o objetivo de ter um subterfúgio de sua realidade.


Durante o desenvolvimento da obra, é aprendido que Anthony é infiel e traiu sua mulher. Portanto, o mesmo cria um personagem em sua mente, ou passa a interpretar inconscientemente outra pessoa, uma duplicação de si mesmo, onde ele esteja “livre” de qualquer julgamento da sociedade.
Adam seria um possível recomeço para Anthony. Ele é o homem que ele deseja ser: solteiro, com uma vida pacata, superficial e sem obrigações. Exceto pelo fato de que Adam acaba se tornando um refúgio psicológico de Anthony, e as diversas citações a ditaduras que Adam faz servem de alusão a suas duas vidas, a inconsciente — onde ele vive o mesmo dia repetidas vezes, aprisionado a sua rotina vazia — e a real, onde ele tenta firmemente ser fiel e sempre acaba recorrendo ao adultério, ficando aprisionado a este padrão.
Constantemente, o filme apresenta aranhas. São elas metáforas para as mulheres da vida do personagem; são os elementos que o aprisionam na grande teia ilustrada pela fotografia da cidade de Toronto. Tanto Adam quanto Anthony estão presos a duas mulheres diferentes e à sua mãe, que também é representada pela aranha gigante. Afinal, foi ela quem o deu à luz. É ela aquela que aconselha, a que pune e a que ama. É ela a única que sabe o tempo todo qual é o verdadeiro dos homens.








As cores beges/amareladas criam um ambiente sufocador, uma constante clausura do personagem. Tem-se a sensação de que o protagonista está sendo constantemente achatado por este ambiente.




Outro elemento importante e indispensável para narrativa é a chave, que por si só se explica: esta é a escolha do protagonista. Quando Adam morre, Anthony decide abraçar a vida com sua esposa e tentar ser fiel. Mas, novamente, quando a chave aparece, ele volta atrás na sua decisão e os padrões voltam a se repetir.


A diferença dos dois homens está estampada em suas personalidades e nos elementos que os circundam.
Adam sempre mantém sua cabeça baixa. Seu apartamento é pouco iluminado e sempre o vemos ambientado durante a noite. Sua expressão é de um homem cansado (refúgio psicológico). Seus olhos mostram cansaço e suas ações demonstram fraquezas.




Anthony, por sua vez, é enérgico. Suas ações demonstram força. Ele toma as atitudes, suas expressões são firmes, seus planos sempre possuem mais iluminação e a maioria de suas ações acontece durante a luz do dia.




O desfecho da trama é apresentado por Adam na aula de história. Anthony vive em uma ditadura, é aprisionado por aquilo que almeja ser e por aquilo que sua natureza não consegue deixar de ser. Ele é controlado pelas mulheres (aranhas), enclausurado em teias, tornando sua vida um ciclo padronizado.
O Homem Duplicado vai muito além de sua premissa simples, e assisti-lo sem que haja o cuidado de analisar seus principais elementos é tornar rasa a sua proposta. Mas quando visto a partir de cores, narrativas, elementos e motivações dos personagens, a obra torna-se um recente cult dentro da sétima arte.
Confira o trailer de O Homem Duplicado logo abaixo.

