Theeb: uma resposta à altura de David Lean

Só sobrevive ao deserto quem o conquista desde o berço


Lançado em 1962, o épico Lawrence da Arábia (Lawrence of Arabia), dirigido pelo mestre David Lean, trazia como protagonista um oficial das forças armadas britânicas que, apaixonado pelo deserto, se oferece para ajudar os árabes a se libertarem do domínio dos turcos durante a I Guerra Mundial. Numa trajetória que o lança como controverso herói a ser idolatrado pelos seus aliados, o sujeito é pouco a pouco consumido pelo poder que exerce sobre aquelas pessoas, num belo estudo de personagem que justifica a grandeza que o filme inspira até os dias de hoje.

Lean e Nowar: uma resposta árabe à altura do épico britânico.

Assim, foi com certa empolgação que assisti a este Theeb, concorrente da Jordânia a melhor filme estrangeiro no Oscar 2016. O longa, afinal, se inspira na obra-prima de Lean com o intuito de contestá-la e, ao contrário do que faz o forasteiro vivido por Peter O'Toole, afirmar que no deserto só sobrevive aquele que o conquista desde o berço.

Mas vamos por partes. O filme — que também se passa durante a I Guerra Mundial — nos apresenta a Hussein e Theeb, moradores de uma província árabe que se veem incumbidos de acompanhar um oficial britânico durante uma perigosa travessia pelo deserto. Personagem que até fisicamente lembra o T. E. Lawrence de 62, Edward (Jack Fox) é um soldado inglês que carece apenas da mesma simpatia vista em sua principal inspiração. Paranóico e mal humorado, ele não faz a mínima questão de agradar quem o ajuda, tratando com estupidez até mesmo crianças. Ainda assim, o pequeno Theeb, fascinado pela figura do homem branco que surge em seu território, acaba dando um jeito de seguir os integrantes da travessia e, dessa forma, participar da missão que move o longa.

"Quantos homens vocês já matou?" — pergunta Theeb ao impaciente soldado britânico.

A julgar pela forma com que os acontecimentos se desenrolam (sobretudo no que diz respeito ao destino de Edward), o que o diretor britânico Naji Abu Nowar parece afirmar é que, no mundo real — ou seja, sem a presença de dramatizações literárias e hollywoodianas — o deserto só pode ser encarado por quem o tem dentro de si desde o começo. Nele, não há espaço para forasteiros, ao passo que ter em Theeb nossa principal referência confirma que seu filme é, na verdade, a representação de um rito de passagem essencial ao pequeno personagem, durante o qual a vulnerabilidade infantil dá lugar ao adulto incapaz de perecer sob o sol.

É bacana perceber como Abu Nowar, para isso, faz de seu filme uma espécie de faroeste no qual a trilha sonora exerce papel fundamental para estabelecer os desafios enfrentados por Hussein e Theeb. Perceba, por exemplo, que a tristeza do segundo em vários momentos é ressaltada por acordes que remetem diretamente ao trabalho de Ennio Morricone em sua fase spaghetti. Além disso, Nowar concebe sequências de tiroteiro repletas de absurda tensão e que em nada devem aos grandes clássicos do gênero, como aquela que, ambientada à noite e em meio a cânions, utiliza o eco de vozes raivosas para acoar pouco a pouco o nosso protagonista.

Contando ainda com um arco dramático fiel à sua natureza (não há piedade para sujeitos impiedosos), Theeb ainda nos brinda com um desfecho que faz jus à batalha travada pelo seu personagem principal. E observá-lo ignorando o progresso prometido pelo estrangeiro para se ater à terra que sempre o serviu, desde já, é um dos momentos mais belos que vi nos últimos anos.


Direção: Naji Abu Nowar
Roteiro: Naji Abu Nowar e Bassel Ghandour
Elenco principal: Jacir Eid Al-Hwietat, Hussein Salameh Al-Sweilhiyeen, Hassan Mutlag Al-Maraiyeh



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